O hipotireoidismo congênito é uma das condições rastreadas na triagem neonatal, e por um motivo muito claro: nos primeiros meses de vida, o hormônio tireoidiano é indispensável para o desenvolvimento neurológico. O bebê afetado costuma parecer completamente normal ao nascer, o que torna a triagem insubstituível.
Identificado cedo e tratado com reposição hormonal nas primeiras semanas, o prognóstico é excelente e a criança se desenvolve normalmente. É um dos exemplos mais bem-sucedidos de medicina preventiva — e uma razão a mais para não adiar o teste do pezinho.
Hipotireoidismo adquirido
Quando a tireoide passa a funcionar de menos mais tarde na infância ou na adolescência, a causa mais comum é a tireoidite de Hashimoto, uma condição autoimune em que o próprio organismo produz anticorpos contra a glândula. É mais frequente em meninas e costuma aparecer perto da puberdade.
Sinais para observar
- Desaceleração do crescimento — muitas vezes o primeiro e mais confiável sinal, aparecendo antes de qualquer sintoma que a família note
- Cansaço, sonolência, queda no rendimento escolar
- Prisão de ventre
- Pele seca, cabelo quebradiço, queda de cabelo
- Sensação de frio maior que a das outras pessoas
- Ganho de peso discreto
- Aumento do volume do pescoço (bócio)
- Atraso na puberdade ou, em algumas situações, alterações menstruais
Uma observação importante, porque circula muita informação equivocada sobre isso: o hipotireoidismo raramente é a explicação para obesidade em crianças. Quando existe, o ganho de peso é modesto e quase sempre vem acompanhado de queda na velocidade de crescimento. Criança que ganha peso e continua crescendo bem em altura dificilmente tem a tireoide como causa.
O tratamento é a reposição de levotiroxina, em dose ajustada por peso e monitorada com exames periódicos. Com o hormônio adequado, o crescimento retoma o ritmo — e essa recuperação costuma ser bastante evidente na curva.
Hipertireoidismo
Menos comum na infância, ocorre quando a glândula trabalha demais. A causa principal é a doença de Graves, também autoimune.
Os sintomas costumam ser confundidos com questões comportamentais, e por isso o diagnóstico às vezes demora:
- Irritabilidade, ansiedade, agitação
- Dificuldade de concentração e queda no desempenho escolar
- Coração acelerado, palpitações
- Perda de peso apesar de apetite aumentado
- Tremor nas mãos, suor excessivo, intolerância ao calor
- Dificuldade para dormir
- Bócio e, em alguns casos, olhos que parecem mais salientes
Um adolescente que ficou irritadiço, perdeu peso e caiu de rendimento na escola merece, entre outras hipóteses, uma dosagem de função tireoidiana antes de o quadro ser atribuído apenas à “fase”.
O tratamento inicial costuma ser medicamentoso, com acompanhamento próximo. Em casos selecionados, discutem-se outras opções terapêuticas com a família.
Nódulos de tireoide
Nódulos são bem menos frequentes em crianças do que em adultos. Em compensação, quando aparecem, a proporção que exige investigação mais aprofundada é maior do que na população adulta. Por isso a regra é clara: todo nódulo de tireoide em criança ou adolescente precisa ser avaliado por especialista, sem espera.
A investigação envolve exame físico, dosagens hormonais e ultrassonografia da tireoide. Conforme as características observadas, pode ser indicada uma punção aspirativa com agulha fina, procedimento simples e feito em ambiente ambulatorial.
Merecem atenção redobrada nódulos em crianças com história de irradiação na região do pescoço, com história familiar de câncer de tireoide ou de síndromes genéticas relacionadas. Vale dizer também que, mesmo nos casos que confirmam malignidade, o câncer de tireoide na infância tem prognóstico geralmente muito favorável quando tratado adequadamente.
Quem tem mais chance de precisar de acompanhamento
- Crianças com história familiar de doença tireoidiana ou autoimune
- Crianças com diabetes tipo 1, doença celíaca ou outras condições autoimunes
- Meninas com síndrome de Turner e crianças com síndrome de Down, que têm risco aumentado de alterações tireoidianas
- Crianças com desaceleração inexplicada do crescimento
- Crianças com aumento visível ou palpável do pescoço
Dois cuidados que evitam problemas
Não suplemente iodo por conta própria. No Brasil, o sal é iodado e a deficiência é incomum. Iodo em excesso pode desencadear disfunção tireoidiana em pessoas predispostas.
Não interprete exames sozinho. Os valores de referência de TSH e T4 livre variam com a idade, e alterações pequenas e transitórias são frequentes. Um TSH discretamente fora da faixa não significa, por si só, que exista doença ou necessidade de tratamento — o resultado precisa ser lido junto com o quadro clínico da criança.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento de doenças da tireoide na infância exigem avaliação individualizada.
Notou alguma alteração ou tem exames para avaliar? Agende uma consulta no Instituto Crescentia.